quinta-feira, 25 de abril de 2013

Bolo de Chocolate e Natas


Fotografia: Ângela Magalhães

Aqui está o belo destino que eu dei ao meu querido Cacau. Esta é uma receita da diva das divas Nigella Lawson, e não podia deixar de partilhar com vocês esta maravilha dos deuses (apesar de ter feito algumas pequenas alterações). É um bolo requisitadíssimo em minha casa, e, mesmo para os que gostam menos de chocolate, ele é implacável e conquista logo à primeira dentada!

Ingredientes:
200g de chocolate preto com um mínimo de 70% de cacau
125g de manteiga sem sal, derretida
6 ovos: 2 inteiros e 4 separados
170g de açúcar

Para a cobertura das natas:

500 ml de natas
1 colher de chá de essência de baunilha
1 colher de chá de cacau em pó para polvilhar

Preparação:
Comece por pré-aquecer o forno a 180ºC.
Forre o fundo de uma forma de bolos (forma redonda de aproximadamente 25 cm) com papel vegetal.
Derreta o chocolate  em banho-maria e junte a manteiga ao chocolate até ambos derreterem.
Bata 2 ovos mais 4 gemas com 70g de açúcar, e junte o chocolate. À parte, bata as 4 claras em castelo e depois junte o restante açúcar aos poucos, batendo sempre. Adicione de seguida as claras ao chocolate, envolvendo bem. Ponha este preparado na forma forrada a papel vegetal e leve ao forno 35 a 40 minutos. Quando tirar do forno, deixe arrefecer em cima de um tabuleiro de rede para o centro ir baixando à medida que arrefece.
No final, bata as natas e junte a essência de baunilha, continuando a bater, e, quando estiverem firmes, coloque por cima do bolo polvilhado com o cacau em pó. Bom apetite!

segunda-feira, 15 de abril de 2013


A manhã, meus caros amigos… Novamente vos relato a minha história começando por esse momento seminal, que é a manhã. O dia a começar, os pássaros a cantar e todas essas maravilhas da Natureza que dão sentido à criação. Mas não era agora um quadro bucólico, como aquele que vos havia descrito, antes de ser arrancado à minha feliz existência tropical. Um gigantesco ronco de cidade a acordar substituía, tristemente, o amanhecer soalheiro que eu tanto amava!
No princípio, saído das entranhas do monstro voador que aqui me trouxera, dei por mim em deslumbre, com os olhos piscos, no meio de uma babel de muitos sons. Gemidos metálicos, buzinas estridentes, gritos de homens trabalhando, sem alegria ou prazer. Que mente tortuosa inventou semelhante inferno? Uma mente de metal e alavancas e escuridão e deserto, certamente!
Segui o meu percurso, descrente ainda e sempre do futuro…
E subitamente o Mar… Primeiro levemente, por entre os gritos das gaivotas, um ligeiro espumejar, que nos faz sentir a frescura de milhões de gotículas salgadas na alma e depois, forte e retumbante, o rugido de um gigante, enquanto se despenhava mais uma onda nas rochas, antigas como o mundo. E o aroma, pelos deuses… O perfume da felicidade é o que é. O odor de incontáveis peixes, algas, seixos e sal, muito sal… Já dele tinha ouvido falar e até já o tinha visto, lá em baixo, enquanto troava os ares no monstro voador, mas nunca o tinha ouvido, nem cheirado. O Mar infinito, universo mágico de cor azul esverdeado, mas em que cabe todo o arco-íris…. E subitamente também, a felicidade, essa frágil musa que eu julgava perdida para sempre, assomou à ombreira da minha vida.
Estava numa terra estranha, que sendo tão diferente, tinha uma vibração que, incompreensivelmente, se assemelhava à daquela onde eu nascera. Não sabia porquê, mas estava num sítio, que se parecia como a minha casa, mas sem o ser. Como dois actos da mesma peça, ou faces diferentes da mesma medalha…
Sentia-me assim em casa, “de volta pro meu aconchego”. Mas devia ser um sonho bom. Não podia ser verdade…
Vi então uma praia. Um extenso, branco e perfumado areal, com uma pequena capelinha entalada na rocha, de ar singelo, humilde, belo e incomensuravelmente forte. Parecia estar ali desde antes da areia, antes do tempo. Que bela visão, a do Mar…
Mas logo deixei de o ver. Atormentado, novamente agarrado, puxado  repuxado  transportado, e colocado em frias prateleiras de uma pequena mercearia. Lá me quedei, finalmente consciente do meu destino: seria consumido!
E não tardou a chegar o algoz. No caso a algoz, o que, bem vistas as coisas, tornou toda a experiência consideravelmente mais agradável.
Tudo se passou muito rápido. Um puxão daqui, uma sacudidela dali, atiram-me para o balcão de alumínio polido e, passados alguns segundos, lá vou a caminho, sem saber para onde, dançando ao ritmo do andar, daquela que é agora a minha Dona. E depois vi aqueles olhos… Escuros, castanhos, quase negros. Desenhados pela mão pressurosa de Afrodite, profundos, abismais, brilhantes. Olhavam para mim, estudavam a minha embalagem, mediam-me a consistência e a cor. Apaixonei-me imediatamente, quis perder-me neles, encontrar lá a minha morada e lá esperar pelo juízo final.
Não sei bem explicar o que me aconteceu depois. Sei que me vi dentro de uma pequena casa, quente e bem iluminada, colorida, repleta e cheirosa, com um enlevo feminino, como nunca eu vira. Vozes claras, risos alegres, e uma cozinha. Com o coração a rebentar de êxtase eu fui sendo moldado, cercado de açúcar, envolvido no chocolate. De gemas e natas fez a Dona a minha morada. Ao som do Tom e da Elis, as Aguas de Março batiam na janela e inundavam o ar à minha volta. E eu ouvia, como se olhasse para outra vida "…falta a raspa de laranja…", "não ponho licor que não vale a pena…", "...não, este não leva farinha…".
E lá continuei a passar por entre os dedos daquela que amava, entregue – e que bem entregue eu estava – aos seus cuidados ternos, já misturado, já confundido e ainda assim, mais perto da minha essência.
"Está pronto! Forno e depois frio, natas por cima e a caminho da barriguinha…"
O perfume doce do chocolate tudo envolve, tudo cura, tudo alegra. E assim cumpri minha função e senti-me feliz.
E amigos meus, cumpriu-se o meu destino! Dos confins da Bahia à terra que Mira o Mar. Sofri e redimi… Até te encontrar, minha Dona, meu amor, eu te me dedico, sempre teu

Cacau


"A breve vida de um fruto", Manuel Miraldo.


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Ah como eu gostava daquelas manhãs brumosas que se derramavam docemente sobre as folhas verdes, minhas irmãs de seiva. Não há amanhecer como o da Bahia de Todos os Santos. O assobio de todos os pássaros, o restolho da bicharada, de cor viva e nomes estranhos, que transportam o ouvinte para um mundo perdido de selvagem bonomia. E o momento em que o nosso Rei Sol, na sua majestade ígnea, despontava nas copas gigantes das árvores tropicais. Ah como era feliz...
 Mas o criador não mistura eternidade com felicidade e, abruptamente, me vi arrancado da minha realidade sonhada. Com a alma entregue ao negrume e antes de soltar um proverbial "ai", já me via a bailar por entre as mãos de um sorridente jovem, com a pele da cor da avelã, chapéu malandro de palha, que entre um e outro passo sambado, me atirou para dentro de um saco de estopa, enquanto assobiava uma modinha do Ataulfo Alves.
Lamentavelmente nem a alegria tropical daquele jovial carrasco me melhorou o estado de espírito. Afinal, em poucos minutos já eu ia aos solavancos, num monstro de metal, que se assemelhava vagamente a uma carrinha, apertado entre os meus irmãos, debaixo de um sol inclemente, que parecia agora uma caricatura cruel, do astro bondoso, que apenas umas horas antes me tinha dado os bons dias.
Ó dura provação que eu apenas ainda tinha começado a saborear! Fui manietado, descascado, curtido ao sol como um pedaço de couro, esmagado, triturado, ensacado, empacotado, embalado, e por fim, encaixotado. Tortura, meus amigos!!! Digo-vos sem peias, que fui submetido a tortura vil e torpe. Para que me querem eles? Para que sirvo eu? Porque não me deixaram eles em paz no meu remanso roceiro? Que destino é este que me espera, pela glória de Zeus?
Entregue ao meu suplício, ouvia horríveis boatos...que ia acabar num boião a besuntar a pele cadavérica de uma dona de casa entediada, que seria adicionado a um pavoroso pó, com o bárbaro nome de "mousse instantânea", ou ainda - horror dos horrores -  a perfumar os marcadores coloridos de uma criança ranhosa...e quereis saber? Eu não me importava! O futuro era tão negro que já não me apoquentava decifrá-lo.
Foi por isso, com resignada indiferença que fui conduzido para fora daquele lugar de pesadelo e, de novo sujeito aos humores da estrada, me deparei, no final de curta viagem, com o mais estranho dos cenários: monstrengos de ferro, que faziam uma barulheira infernal, levantavam voo para terras distantes. Tão diferentes eram dos pássaros que eu conhecia e amava, que pela primeira vez eu chorei...chorei triste, pela sorte daqueles monstrengos que estavam condenados a voar sem a beleza das mil cores das aves nem a perfeição do seu canto. E chorei por mim, que via tudo aquilo como dura recordação de um paraíso perdido, tão distante agora que mais parecia imaginado.
Depois dirigiram-me para junto de um desses monstrengos, e para minha surpresa, uma enorme abertura se recortou nas suas entranhas. Não vos conseguirei descrever, o horror que senti enquanto era depositado no interior ruidoso daquele monstro.
E subitamente confuso, assustado e devidamente acondicionado, tudo se tornou claro na minha mente. Ia viajar! Para onde não sabia. Apenas percebera que tinha terminado o tempo da cobardia. Não iria chorar mais! Franzi o cenho, e pensei: "Não sei para onde vou, mas farei da glória a minha bengala!".
O monstro levantou voo. O barulho era insuportável. Tinha partido!

Em breve vos contarei o final da minha história. Até lá, com cordiais cumprimentos me despeço, sempre vosso,


Cacau.